|
janeiro 04, 2007
[holoehd]
AVISO OFICIAL
devido a irregularidades no processo de legalização deste espaço, e em conformidade com as orientações programáticas do S.H.P.C.P. (secretariado de harmonização profilática da conduta pessoal), declara-se este espaço: a) fechado por prazo indefinido; e b) em estado de saque
-------------
cumpra-se o holocausto nenhum cordeiro sofreu uma embolia nuclear as almas continuam a deleitar-se nas lamas fecharam-se as mãos sobre o sangue do rapazinho caiu o pano na nódoa
finalmente as nove e um quarto de um dia destes
novembro 26, 2006
[birn]
vem, entra nesta sala preenchida de músicas e possibilidades. senta-te, pede uma cerveja, abre os olhos, as portas. observa com nítida imprecisão as linhas que subitamente oscilam; que torcendo-se emprestam a vibração do desassossego à escultura das palavras que ficam sempre por cuspir
vem, vive, observa o confronto entre a passarola e a terra, o sonho e a picareta, o quadrado e o sangue, a flor e a culpa, a beleza e a mentira. percebe.. vem, e sente, permite-te ao luxo de assistir impunemente ao desencadear e consumação do holocausto da alma neste ambiente improvável: ilumine-se a a restrição de um corredor só definido por portas com a luz nua da vontade
em certas ocasiões recordo-me das frases que, escritas na minha pele por mãos vítimas do medo, se dissolveram pelo corpo dentro, envenenando-me com a memória da insatisfação sistemática, imprimindo o susto da morte prematura nos passos do caminho que leva dos olhos a luz
vem, assim. vem e faz do meu desejo o local onde as noites te sejam admiráveis, o ar prenhe de vitalidade, a vida o eterno desafio de a viver
novembro 22, 2006
[rosangulo]
existe uma árvore que canta na cabeça da mulher que se baixa para arrebatar com mãos de janela os desejos do mundo que pára ao ouvir dos ramos a música dos seios de fruta o silvo que antecede a queda da carne trémula nos dedos tão enormes tão transparentes quanto do corpo a pele gasta de a tanta parede ter emprestado cor até haver deixado de ser fronteira para passar a ser janela e cabeça de terra que absorve e nutre a mulher que se quer perdida no desejo do mundo com o sangue que fica quando a chuva se exaure da distância e abandona à cegueira da vida o deslumbrado olho do mundo
novembro 16, 2006
[sugus]
começar um poema com mãos impolutas e o olhar cego de tudo desenhar nos espaços do espaço uma moldura para a trama que já lá está despejar das vísceras o desejo de existir e renascer renascer a pontapear a luz sem sombra fazer por ser puta a face que se cria crua no calor da concha que alberga a cabeça crua na concha de vidro recursiva que afasta da boca a sede e leva a beber o vinho pelos pés a foder como uma divindade e recusar nomes guarda-chuva a rasgar máscaras para descobrir caras que rasguem as máscaras e começar um poema pelo viver pela posição desconfortável de viver sobretudo nunca julgar que um poema é um segmento de recta ou um miradouro ou a tentação do acabar de um poema
outubro 24, 2006
Improvisions Teatraliqy Un
[suinazzone]
Configuração: dois grupos de espectadores. Um grupo de espectadores sentados em filas, de frente para um grande espelho, com um foco forte de luz nas suas costas, por forma ser também reflectido no espelho. O outro grupo de espectadores sentados em filas, com um foco forte de luz diante deles (ofuscando-os) e outro atrás dos mesmos. Entre os dois grupos um espaço para onde será atirada uma caixa quadrada, com um coração inscrito numa das faces da caixa, face esta que deverá ficar voltada para cima. Dentro da caixa encontram-se papéis amarfanhados com palavras relativas a categorias que possam definir, interferir e/ou fazer parte do processo de construição/destruição/modificação do coração. O texto será lido por um locutor, assumindo como princípios fonéticos tons de confrontação (e interpelação), ironia e oscilações entre perversidade e inocência q.b.. Este locutor não será visto pela audiência, falando através de um sistema de som de forma a não ser possível identificar a sua localização.
Início Vocêêêêêês… Chamam o coração, tentam ouvir o eco do vosso apelo. No escuro do quarto. À noite. Quando cada um de vós está sozinho, a levitar sobre a vossa própria existência. Sozinhos. Com a cabeça ternamente enformada numa almofada que não é um peito. Que não é um descanso. Chamam-no, e julgam saber perfeitamente o que ele é. O que ele é para cada um vós, em cada um de vós. Julgam conhecê-lo tão bem que se dão ao luxo de o vomitar em cada beijo que dão, em cada uma das obrigações diárias de hábito a que chamam amizade, família ou maneiras. E depois das obrigações, saem à rua e embebedam-se, drogam-se, vendem-se. Tentam perder-se de vós mesmos, despistar a vossa identidade medonha, perder o domínio sobre gestos, palavras, respirações. Tudo numa busca atroz pelo vosso próprio coração. O tal coração que desesperadamente tentam proteger. Por acaso alguma vez tiveram coragem de olhar de frente para o coração? Talvez de chegar à conclusão que ele é apenas uma desculpa, um placebo, um bode expiatório para as vossas dores de… coração?
[Arremesso da Caixa-Coração para o espaço entre os grupos, acendendo-se um foco sobre a mesma, evidenciado-a. O importante é evidenciá-la, mantendo-a num ‘espaço’ isolado]
Acção – Coração no Chão QUIETOS! Também eu tento proteger o meu coração. Não de vocês. Não dele próprio. Não dos egoísmos, narcisismos ou canibalismos diários. Tento protegê-lo do cadáver que o alberga. Deixá-lo à sua função. Simbólica, fisiológica, metabólica, metafísica, prática. O que dele for, a ele pertença por direito, e eu, na minha cegueira de humano, simplesmente desconheça. Acima de tudo, protegê-lo da diluição da memória. Quando chamo o meu coração, ele nunca me responde. Apenas existe. Apenas existe, ouviram bem. Tenho um coração que apenas existe.
Antes, não havia a palavra coração. Haviam os medos, as pulsões, os actos sem nome, os pensamentos místicos e as vontades do sangue e da saliva. Os sentimentos inomináveis. Hoje em dia, tudo é destrutível. Tudo é sacrificável à desesperada necessidade de encontrar um sentido para existirem, de símbolos que possam colocar no meio dos vossos nomes, como se precisassem de cimento para se sentirem íntegros. Que melhor cimento, que melhor vítima, que algo tão precioso, tão sem sentido como o é o coração? Vocês precisam mesmo do CoRaÇãO para sentirem que existem?
Perguntam-me muitas vezes pelo meu coração. Vocês, perguntam-me muitas vezes pelo meu coração. Se ele está triste. Se ele está alegre. Se ele está satisfeito ou saudável. Se ele anda mais inclinado para isto ou para aquilo. Se o meu coração ainda está vivo. Como se o coração fosse algo que sob uma luz qualquer se revelasse totalmente. Vocês cospem sobre mim como se cuspissem sobre o meu coração. Cospem como se a vossa expectoração fosse luz. Cospem, para tentarem ver se ele tem sombra, contornos, algo que fosse definível em palavras, em ângulos, em formas concebíveis. Tentam que eu assuma um compromisso por ele. Ou ele por mim. Que seja um coração definido. Um coração de conceitos, portanto. Não se ofende, ele, com essas ofensas rasteiras. Molda-se até a essa facilidade julgada necessária para a compreensão a que se chamam categorias.
Final Ei-lo. Tomem-no. Abram-no. [Levar a audiência a abrir a caixa e a retirar os papéis, distribuindo-os pelos espectadores] Ele escreveu-se e pediu-me permissão para sair pelos meus dedos para o vosso seio. Por muito orgulhosos que seja, ele e eu já nos apercebemos que antes mal acompanhado que só. Defeito genético. Abram-no. ABRAM-NO. Vejam-nos. Mostrem-no. Mostrem-me, exponham por todo o lado o meu coração. [Levar a audiência a expor os papéis escritos com categorias, improvisando] Não é gratuitamente que ele se apresenta. Essa casca de cebola caótica, construída laboriosamente sob o cinzel cruel do tempo, pede um preço para se prestar ao toque.
[Neste ponto, confrontar alguns espectadores que mostrem um papel com uma questão referente à categoria que aí se encontre inscrita. Por exemplo, se a categoria for ‘Religião’, indagar acerca da crença ou não do espectador relativamente a um deus, sendo que se a resposta for no sentido da crença se pode colocar a questão se esse deus é mais importante que o coração do espectador, etc, etc. Aqui trata-se de improvisar, sempre mantendo os princípios da confrontação, ironia e perversidade/inocência]
Tanto para nada. O coração é a vossa vaca sagrada. Querem-no tanto que nunca o usam realmente. Apenas como adereço das miseráveis estradas de sentimentos batidos a que chamam vida. Lembram-se da noite em que dormiram sozinhos após serem enganados ou abandonados por um vosso… suposto… amor? Da noite em que a vossa mãe, o vosso avô, o vosso amigo foi enterrado? Da noite em que se arrepiaram por a traição da vossa sonolência vos ter dito, com o compasso da pulsação do sangue sentido entre o ouvido e essa almofada mecânica, que um dia tu, tu, tu… cada um de vocês iriam não existir, iriam estar mortos. Mortos, não podendo sequer dizer a palavra… ‘coração’? Mortos, sem poderem, finalmente, usar esse estúpido coração sem… medo? USÁ-LO, sem o abjecto receio não de o gastarem, não de o magoarem, mas de se magoarem a vocês próprios, usando-o como uma desculpa banal para a merda que fazem, para a merda que desejariam fazer?
Como uma desculpa… eheheh…. Como uma desculpa? A essa bomba mecânica com um nome que vos serve de desculpa para tudo o que fazem e de que se envergonham? A esse escravo simbólico a quem o sangue pertence mais que a vocês próprios, e que mesmo assim tem a paradoxal bondade de vos sustentar esse vicio medonho de… existirem? De cada um de vocês, eheheh… de cada um de vocês existir, à ignara escravatura desse sangue cardíaco que vos corre por esse esgoto a que dão o vosso… o teu, o teu… o teu….nome?
Afinal, que querem vocês proteger? O vosso coração ou… vocês próprios?
outubro 10, 2006
[trisime]
nessa fria manhã de novembro, assente sobre um chão salpicado de espelhos e encimada por uma luz que ofuscava os transeuntes, transformando em ilusão o caminho julgado conhecido, fernando atalhava por passeios e jardins em direcção a um encontro marcado há tempos. do outro lado da combinação encontrava-se um amigo que distava de longínquos tempos e paragens. fernando aparava dificilmente as suas memórias de então, concebendo paisagens do seu amigo como se fossem hoje passar-se os dias de outrora
na forma como se encara o retorno dos que souberam alguma vez encontrar-nos por detrás dos nossos olhos e das nossas múltiplas máscaras, entranhando-se sem por tal se dar conta no vasto absurdo que nos antecede a pele, passando a um estado de comunhão de espaços e tempos que caracteriza aquilo que se pode classificar de 'gostar', encontra-se, dizia-se no início da frase, grande parte da personalidade de alguém
fernando cogitava em tudo isto, julgando algo paradoxal, se não mesmo impossibilidade, estes estranhos jogos de memória, quando deu por si num cruzamento deserto. ali, naquele instante, este sim era facto que se revestia de tal singularidade e inverosimilhança que imediatamente gelou a fernando passo, sangue e pensamento. não carros, não pessoas, não nada. só a gélida manhã, as poças de água, e os raios solares vindo do fundo da rua virada a nascente, cegando essa saída
em não raros instantes surgem situações em que tudo parece absolutamente improvável, difícil de acreditar, de conceber à luz do entendimento nesse dado momento. situações que aparentemente obedecem a uma linearidade lógica e racional, mas que em nós são invalidadas por um qualquer mecanismo de disfunção emocional, parecendo criar a partir do vivido, em nós, uma contradição que quebra a noção de ordem e nos estilhaça o sentido de sentido: um desfasamento entre a expectativa (ou hábito) intelígivel do mundo e um sentir mais profundo, de ordem mística, inenarrável por palavras, que esporadicamente abre uma brecha nos altos muros da razão e se mostra violento à superfície
fernando, em reganhando ao susto as suas capacidades motoras e intelectuais, fez o que é prática neste tipo de casos: adaptou-se, criando artificialmente um sentido que lhe permitisse continuar. ou seja, esqueceu-se, obliterou, mastigou e engoliu o si-profundo que houvera pasmado à luz daquela suposta irrealidade. pensou no amigo e no seu objectivo dessa manhã. reconheceu naquele cruzamento o local estabelecido para o encontro, exactamente à porta daquela pastelaria voltada para norte, daí a dois minutos
passados dez minutos da hora agendada, sem que qualquer tipo de acção se passasse no local - muito menos a aparição do amigo - recomeçou a ficar nervoso
vinte minutos volvidos, no seu relógio de pulso, e na sua mente uma série de possibilidades se haviam já intrincado e tentado subir a pulso à categoria de explicação por excelência, aquela que o tranquilizaria por mais um pouco
aos trinta minutos de aguardo, fernando perdera já, mais que a esperança, a fé no que pensava ser verdade: que tinha combinado com o seu amigo de longa data estar em frente àquela porta, há trinta minutos atrás. a falta de movimento no cruzamento tinha sido substituída pela necessidade de entretenimento pela moção das poucas nuvens no céu e pela alteração do ângulo solar e correspondentes sombras
mais dez minutos e fernando interrogava-se se realmente existia ou alguma vez existira amigo; se tudo não seria uma invenção da sua imaginação como método de substituição da realidade exterior pelo fervor da sua própria vontade do existir o amigo
apontando o relógio uma hora após a suposta hora agendada, fernando houvera-se sentado e adormecido. sonhava com um baile de máscaras, em que os convivas eram a plêiade dos seus conhecidos. havia apenas uma pessoa sem máscara: ele próprio, lívido, com a face desenhada numa expressão de terror. no grande cruzamento onde decorria o baile havia passado por inúmeros espelhos que tinham brotado das ruas, das calçadas, das portas, e em nenhum deles, quando a estes se colocava defronte, se conseguira ver
sonhando interminavelmente, adormecido no passeio em meio à multidão acordada que se atropelava pelo cruzamento para chegar a lugar algum, reparando nele para de logo seguida o ignorar, interrogava-se na sua bebedeira onírica como seria possível saber ser ele o único sem máscara em meio a tamanha multidão, visto não conseguir observar o seu próprio reflexo em espelho ou máscara alguma; qual a visão que lhe daria tal certeza
finalmente enraivecido por se não conseguir ver, tão forte era a noção de si próprio, desatou a arrancar as máscaras dos seus amigos. constatou que por detrás de cada máscara se encontrava outra máscara, diferente da anterior, mas na qual ele, fernando, continuava a reconhecer essa mesma pessoa
embrutecido por tudo isto, fernando dirigiu-se a uma porta do cruzamento onde decorria o baile. sentou-se, fingindo esperar pelo amigo, e adormeceu
outubro 04, 2006
- a minha não é assim. isto parece uma folha
- não, não parece. isto é um símbolo, não aquilo que é suposto simbolizar
- e se pretensamente simbolizar mesmo uma folha?
- obviamente não pretende simbolizar uma folha. um símbolo é uma utilidade, uma chave para a ordenação, mesmo que débil, do mundo. e, além do mais, o seu significado surge não só do símbolo, mas também do contexto em que este se insere ao se apresentar
- dizes-me que um símbolo não pode ser ambíguo, o que choca frontalmente com, por exemplo, a poesia, a armadilha da interpretação da mundo a partir da cognição. o contexto pode constituir uma chave de associação com o símbolo, mas não o demarca necessariamente a um significado unívoco; complexifica-o. potencialmente, atenta; torna-o num espaço de liberdade e probabilidades interpretativas
- ou seja, segundo a tua interpretação, este símbolo, nesta porta de casa de banho não simboliza uma vulva, mas antes uma folha. tal como este local não será uma casa de banho; talvez, quiçá, um espelho. ou uma árvore
- talvez. tal como pode ser ambas as coisas em simultâneo, e outras ainda. se não soubesses ser isto uma casa de banho, e nunca houvesses visto uma vulva – nem a tua própria -, que pensarias tu?
- agora? em mijar. nem que fosse da copa na árvore, ou pelo espelho adentro
setembro 25, 2006
a memória dos entes
 [magicqalite]
Sorri à vida amigo, sorri. Afinal, as folhas são verdes e verde é a esperança e o vómito.
Desenha nessa cara neutra as linhas rubro-adoentadas de um sorriso. Afinal, a vida é isto, as crianças e os pássaros que chilreiam enquanto que nós ficamos em terra a vê-los.
Fala bem de ti para o teu irmão interior que eternamente se queixa. Afinal, o amor é lindo, o céu é triste mas azul tal como uma veia com uma seringa espetada.
Dá graças a deus e a toda as leis. Afinal, temos televisão e dinheiro, temos férias e não temos de pensar, e não apenas no verão.
Sorri à vida amigo, sorri. As portas da eternidade estão abertas de par em par à tua espera, pacientemente. O estado e a igreja assim o asseguram.
Alegra-te, pois esse cobertor onde te enrolas na tua negação não é a mortalha com que vais ser (de)fumado. Somos todos irmãos.
Ergue-te de manhã e enche o teu espelho de inveja. A mulher que deixaste na cama pesa menos de 90 Kg e não cheira assim tão mal.
Vê-te não marginal, mas parte da sociedade. Afinal, os patrões e as dívidas constantes todos os têm, e se melhor que eles não estamos, pior também não. É bom trabalhar todos os dias, o trabalho dignifica o homem.
Os filhos são bons, as crianças são o melhor. Afinal, embora não tenham pedido para vir cá para fora, ficam tão queridos quando nos moem o caralho do juízo para que lhes compremos qualquer coisa com mais do que duas cores no embrulho. E serão também felizes adolescentes que só farão sexo, as meninas, quando se casarem, e os meninos, nunca se drogarão. Não serão muito conscientes, mas com esta poluição toda no ar, do mal o menos.
E tudo é brilhante, radioso, estupidamente reluzente. O carro novo, a casa nova, os electrodomésticos em 1ª mão, o dinheiro do aumento que se gasta não tarda, a amante que também o é de mais uns cinco, os móveis sem pinta de pó nem de livros, imaculados de porcarias desviantes, a família que temos de percorrer de fio a pavio todos os anos, as férias no algarve ou no méxico, com empréstimo pessoal, claro, a bola e os amigos, jogo perdido bebedeira pancada na mulher ou foda numa puta, o 13º e o 14º mês a salvarem a falência da agora maior família, um puto ranhoso que não nos deixa dormir e que só dá é despesa, o labirinto do orçamento familiar, a promoção e o poder de mandar tiranicamente em alguém que não nós próprios, que por nossa vez somos à mesma mandados por alguém que também é mandado por alguém, o baptismo do filho, cabrão do puto que me cospe para cima e começa a chorar para repor a água do bidé, a família os amigos, aqueles das putas e as putas das mulheres com os putos vestidos da forma mais ridícula possível para causar boa impressão, a pindérica da mulher bêbada vaca que apanhas com outro que brilha mais que tu, sorri amigo, tudo é brilhante, a pinga ao almoço e ao jantar, dorme-se melhor e já quase não preciso de comprimidos, só para a puta da hemorróida que insiste em crescer e tornar o meu cu num purgatório, mas paneleiro és, e se o teu filho for rua com ele, cabrona da criancinha que tem uns tiques de bicha que é coisa doida, e a sogra, amigo, a sábia anciã que controla a tua vida e te mói os cornos até fazer farinha, os chinelos e a televisão à noite, simples peça do grande sistema de home video triplo chis cona da prima surround com dêvêdê digital torradeira e frigorífico com ligação à internet forrado de cerveja, finalmente não tenho de pensar em nada, até porque durante o dia pensaste muito, e na luminescência apagada da televisão aquelas guerras e aqueles coitadinhos e aqueles políticos e intelectuais e pimbas e filmes série Q e tu a dormir, ah, parece-se um anjo quando se adormece morto cerebralmente em frente à televisão, que continua incansável a emitir a sua chuva de partículas radioactivas, será que o segredo do universo está escrito na estática que radia na tv entre as 5 e as 6 da manhã?, sorri amigo, tudo é radioso, e o seguro de saúde, que o de vida não o fazes, apanhaste a tua mulher com menos de 70 kilos agora, viva o talon, na cama com o teu filho, e com o amigo dele?, o amigo em cima do teu puto de costas enquanto lambia o entrepernas da tua sócia, que uivava em ciclos periódicos de 4 segundos, contados ao cronómetro?, já me vim, disse o amigo do teu alegre e sorridente rebento, quando se levantou e deu de cara contigo especado como um espantalho na porta do quarto, a espumar do canto da boca e com olhos de carneiro mal-morto?, sim o de vida não o faço, posso estou quase a morrer, já não se pode confiar numa puta hoje em dia, mas aquela cabra infiel e poligâmica e aquela, aquela, aquela bicha maluca não ficam nem com um centavo cá do velho, ah pois é, e agora esse barco, esse belo barco a motor que espanta à distância qualquer papalvo que se atreva a nadar a mais de 4 metros da praia, aquela máquina infernal, testosterónica, poderosa, alva como a tua defunta sogra quando finalmente bateu o pernil, o contacto com a natureza, o cheiro agradável a combustível queimado, as miúdas que vão de certeza dar uma voltinha contigo, ah, a tua juventude está na cabeça, na cabeça, e o teu filho agora anda na drogas e a dar-se com gente esquisita, mas deixa-o estar, desde que ande feliz e não te chateie a paciência, quero é andar a dar voltas e não pensar em nada, quanto menos pensas mais feliz és amigo, mais feliz, nessa altura já vais mandar numa porradona de gente e não vais ter de fazer nenhum, apenas uns pequenos intervalos e uma grande almoçarada, vês como a tua barriga reluz de contente, até os barulhinhos que ela faz parecem obrigados pelo bom trato que lhe dás, qual gordo qual quê, para brilho já te basta a calva agora extensíssima que, não faças esse ar, te dá um ar de homem mais velho, com mais experiência de vida, que já viu muito e se chateou pouco, e a reforma vem aí, quase aí, afinal não morreste de nenhuma doença sexual, e aí chegou, o teu objectivo de uma vida, a tua imaculada reforma, agora é que começa a vida, nota, tu sabes tu sabes, pareces um focinho de um daqueles cães extremamente feios, mas até eles são obras de deus, ao menos agora já ninguém te cobiça a esposa e a cadela até te passa a pomada nas pernas, pode ser que voltes a andar, afinal acidentes acontecem e o teu filho nem devia ter intenção de te atropelar, devia ir distraído, sabes como são estes escritores, sempre com a cabeça no ar, e com o sucesso que ele tem deve ter coisas mais importantes em que pensar, afinal as muletas, ah não, é a cadeira de rodas, seja, não é assim uma coisa tão má, até tem um motorzinho e tudo, vês, podes fumar o teu cigarrinho, a tua mulher já morreu de cancro no cérebro, coitadinha, era tão boazinha para ti, o teu filho e os teus netos e a tua nora, quem diria, até te visitam das 3 às 4 nos domingos, e a enfermeira, que te muda o soro e te põe a cagar e te lava todo, ah, deixa lá, se ainda tivesses tusa ela assustava-se e fugia, vês, agora tens tanto tempo para não pensar, aí entrevado nessa cama com lençóis lavados, sorri amigo, sorri, se não tivesses tanto dinheiro não tinhas enfermeiras boas nem lençóis lavados, se calhar estavas numa aldeia perdida nos cus de judas com a casa cheia de velhos e velhas todos os dias, temos de ver o lado positivo em tudo, é como a tua careca, é tão suave, tão perfeita, tão brilhante, sabes, e vê neste facto a beleza da tua vida, da tua bela vidinha, tão bem vivida, dizia, é tão brilhante como o teu caixão envernizado, só estão quatro pessoas?, o que interessa é a qualidade, não a quantidade, esse belo pedaço de carpintaria industrial cujo verniz perfeitamente passado por uma máquina, último grito no ramo de acessórios para funerárias, cujo verniz de mil reflexos reluz, sorri pois amigo, pois a vida é estupidamente reluzente, agora já podes não pensar à vontade.
20 de Junho de 2002
setembro 14, 2006
"Tomou, pois, Abraão a lenha do holocausto e a pôs sobre Isaque, seu filho; tomou também na mão o fogo e o cutelo, e foram caminhando juntos.
Então disse Isaque a Abraão, seu pai: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
Respondeu Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. E os dois iam caminhando juntos.
Havendo eles chegado ao lugar que Deus lhe dissera, edificou Abraão ali o altar e pôs a lenha em ordem; o amarrou, a Isaque, seu filho, e o deitou sobre o altar em cima da lenha.
E, estendendo a mão, pegou no cutelo para imolar o seu filho." genesis 22, the holy bible
isaque safou-se. desta
setembro 12, 2006
[astro nauta]
é penosa a reconstrução contínua. antigamente tudo era mais fácil. os dias passavam na bonomia de ler aos entardeceres constantes os manuscritos que pareciam sempre ter existido. hoje, e amanhã - e a partir daí também antes - não há uma clareira onde pousar o espírito sempre cansado. a fatiga advém do esforço permanente de ter numa das mãos um bisturi, na outra uma sucessão de mãos aranhescas a querer deixar as suas incertas crenças momentâneas no papel luminoso do existir
fala-se de tempo, mas quase nunca se menciona o ser, essa forja mutante em que se largam o mal e a esperança. não essoutro ser, que a turba quer e crê perene, único e imutável. fala-se do ser sem tempo, que é todo o ser em todos os seres. as forças que estabelecem o nível organizativo da colmeia que somos confluem por tudo, numa miríade inumerável de patamares iguais em padrão, essas forças são algo demasiado complexo, algo inconhecível. são o medo, o terror de não sabermos nunca nada sobre nós. são o assassinato autofágico dos pés que se tentam sempre colocar em cima da correspondente cabeça
é demasiado estreito o espectro de cores que o nosso espírito consegue ver. mesmo assim, mesmo recordando a felicidade de nos termos conseguido ver nos escritos antigos, nas doces tardes de domingo, nas longas noites de verão em que o temor era o recolhimento, mesmo tendo sempre o desejo da lendária idade do nosso ouro, há sempre uma noite em que estamos sós, em que o susto vem como um dilúvio e nos deixa a tremer de sangue. a cegueira é das dádivas mais pretendidas pelo homem. daí o horror trágico de tal estado
há várias lições sobre o amor, tão grande é a palavra. tão absurda enormidade é provavelmente a vontade inerente a cada um de ter todo o mundo, tudo o que existe, como alvo permanente a abater, a dominar, a engolir para dentro da masmorra que cada um pensa ser. mas o amor é somente uma parte do medo, a parte da reacção, que ou fica estática ou desata a correr. há uma parte do amor que poucos podem, têm a coragem de enfrentar: a parte invísivel, impossível de nomear
todos são, em maior ou menor escala, porcos tradicionais: uma pocilga onde pocilgar, uma boca de onde grunhir, uma porca para possuir, uns leitões para amamentar, uns pares que só não são devorados se não for estritamente necessário. e alguém, alguma coisa que providencie alimento
nunca vi um porco olhar para o céu durante mais que uns instantes. penso eu
que fazer com uma postura erecta, penso ser a principal questão que se nos apresenta nos dias que correm. como justificar tão grande distância entre os pés e a cabeça, como ter uma mão tão grande que nos abrace e providencie ternura quando a sensação de solidão gela a escuridão onde dormimos, onde permitimos que a invasão dos abismos nos preencha os olhos supostamente sensíveis apenas à luz. não há opção ao medo. não há opção ao irmão gémeo do medo, o desejo. é entre estes que agora e sempre existimos, sem as certezas que cobriam o chão de onde descolaram os corpos inquietos há pouco. é entre estes que está o amor. é para ele que temos de ter as mãos, os olhos, a voz, a coragem, a vida, grandes
realmente não existem vacas sagradas. nem porcos. muito menos estas improbabilidades a que chamamos nós. é pena que se pense que a partir do medo só se possa destruir ou conservar. elevem-se sublimes os grandes necrófagos pelos ares, na sua valsa holística de vida, em nome de tudo o que em nós e em tudo se desconhece
setembro 07, 2006
[sodomor]
um homem acorda de manhã e olha-se no único espelho da casa vê-se um e levando uma mão que treme à face apagada traça com o marfim da garra um rasto de sangue gelado libertando das vísceras um murmúrio sem tempo: a ameaça da dispersão do seu nome sacralizado pelo espaço em que o significado é um dilúvio que fluindo por todo o espaço impede a fixação dos corpos em linguagens menores
um homem masturba-se para se afogar numa guerra limpa desenha nos dentes cerrados como as portas de tróia o desejo de naquele instante ser um através do prazer lutando na inevitabilidade do orgasmo contra o iminente estilhaçar do seu sentimento de si querendo-se imperecível indivisível perfeito e vem-se imóvel com uma palavra cuspida como veneno da boca escancarada réptil retomando a sintonia em momentos tentando desajeitadamente limpar com papel e caneta o adubo perdido na terra negra sentindo no estômago o incómodo de um sopro corrosivo um fogo de pétalas que lhe rebenta pelo umbigo deixando-lhe como único descanso a morte do sonho
um homem sonha com um mundo destruído de homens levanta-se e olha-se num lago de chumbo perguntando-se quem é com as mãos levantadas em fúria até surgir um homem que lhe pergunta quem é um homem que diz ter sob os pés um lago repleto de sensações que não são nem mentira nem verdade apenas as vozes de um conjunto de homens que pensaram ser um até ao instante em que um homem acordou de manhã sabendo que ia morrer ou sonhar que quando acordasse iria estilhaçar um espelho que era um lago feito por um homem que um dia sonhou ser muitos homens todos com a mesma pergunta entalada na garganta de um homem que vindo-se se pôs a lamber o papel onde o espema desenhara palavras sem nexo que contavam a estória de um homem que sonhara ter um lago nas costas onde uma mulher perguntava a um espelho se sabia onde estavam os homens que a haviam violado e transformado num homem que apenas sabe sonhar e nesse teatro de admirável imaginação perguntar a um lago com as mãos elevadas por sobre os olhos quem é a mulher que foi o homem que agora era
setembro 05, 2006
há uma flutuação de desejo em redor do meu corpo perceptível como um carnaval invisível quando impossível um toque se assume em potencial de desejo e da terra surge venenoso o cheiro a sexo
não sou então eu que estremeço e é de longe que me vem a voz, o medo as três mãos que me arrebatam dos gestos o homicídio gelado da vontade o néctar que se me espirra do nariz convertendo um gosto de asas na masmorra que dos olhos me retira o humano deixando espalhada no caminho para o abismo a cinza da língua insatisfeita ardida até à exaustão dos dentes
os cães que ladram não morrem de bruxismo
agosto 31, 2006
[boing ou não]
começar por onde não se quer é fazer um ornitorrinco a partir de uma aranha e de uma lula. começar por onde não se quer compra-se com o sangue da sanidade. começar por onde não se quer é o holocausto rodeado de espectadores. começar por onde não se quer é a palavra escrita com letras de outros significados que não o dela
euforicamente começa-se, com a raiva do local onde não nos encontramos, onde sabemos querer estar. começa-se com a velocidade do desejo instável na margem do buraco negro. sem sentido começa-se, começa-se. um círculo de medo a rodear o corpo que treme, que se expande numa cascata de barragem com rachas como vincos de pele. mas começa-se, sob a ameaça desse medo que leva as veias à ebulição, os olhos ao limite
e começado, pergunta-se à noz com duas cascas: quem me colocou no local errado? quem ousou irromper a minha divindade humana com questões, a minha virgindade inocente com o sexo obsceno da dúvida? - sendo respondido com esta dentada: a tua vontade de começar
de vez em quando surgem uns dragões, bondosos, quando se tenta perceber se se sonha ou não tentando empurrar os objectos em redor - se não se moverem, está-se num sonho -: ateiam-me fogo às canelas
agosto 23, 2006
nasce da terra FECHADA
ar concreto de esferas e perfumes - acenos de longe à morte - gozo da criança com
o l h o s de velho
um gesto gasto de uma rapariga arranca um dente e com a coragem de uma carícia semeia a promessa de esperança no espaço infinito que se refaz entre dois quaisquer momentos
estou quase a tocar-te
ouvem todos os ventos que transportam as vozes dos que morreram iludindo-se com a doçura de rosa da liberdade
quase
e a rapariga quase
quase, amor do mundo, amor do nada
saltam os gritinhos das flores e das elevações nas mãos das palavras, e folheiam folheam folham folhm flhm as geometrias do espírito em busca dos futuros
quase te toquei - JÁ
e escorregam, martelam, desenham-se as portas e as janelas das casas, as árvores e as suas múltiplas raízes, e depois podem cessar a respiração, e abandonar as cidades, e trocar de sexo com as mãos, e acabar com as disjunções pragmático-trágicas
procurar o toque
inventar o género
destruir a impossibilidade da proximidade eliminando as margens do rio
dissolver tudo no espaço infinito entre os passos do carinho
toco-te peço-te à distância em que agora te vejo
deixa de existir agora para que eu possa viver a improbabilidade vertiginosa deste instante de morte
em que a terra se abre para a rapariga depositar no labirinto o desejo que com um toque lhe roubou um dente
eliminando o grande vazio em que tudo se instala no conforto extremo de inconsciência
toco-te agora, agora, sou rapariga, chamam-me mulher, estão enganados, eu
não sou da terra, não é a morte que eu cheiro
agosto 16, 2006
as mãos desgarram nas linhas que se cruzam pelo etéreo das diferenças sorvendo lagartos ensolarados quentes como a areia da praia como as peles que longamente se afirmam sobre a agitação por vezes frenética do sol
é assim que chegam as veias brancas de insecto esmagado pela testa da opulência torcionadas como se de fibras e pétalas se firmassem no largo pensamento do sonho
e das mulheres que abrem os seus olhos como ostras nascem filhos de mãos largas e peito estreito ostentando a imensa pequenez do mundo percepcionado nas palavras que largam como lobos pelo tempo do espaço
são de alabastro as dicotomias horrivelmente prenhes os contos arrepiantes que se escapam dos gestos perdidos de certos velhos que fruem do desembaraço urgente da morte velados como se da morte nem os sapatos se quisesse levar e nascer fosse realmente uma performance de redenção esgotada pela secura salina dos milénios de estrelas caídas de estrelas perdidas
as lâminas quando jovens cortam mais que as lâminas mais velhas
agosto 13, 2006
das grinaldas estendo a língua e a tudo presenteio com a vasta ausência a doçura das unhas que se deslocam e fremem
tudo cresce a partir da tua informação largo como o universo
como esse grito que te invade os braços e esboça no esboço o esboço seguinte
ai! como tudo é de tudo e o nada no tudo nada para boiar uuufffff ffffuuuu
once i've seen a tomato and made a wish unforseen till the day off le vrai day off o feriado em português
de fluidos corporais e de sonhos perdidos pelo nevoeiro do adormecimento
tantos. tantos que somos tantos
ele não fugiu ficou pelo patamar do meio de onde se avistam todas as pessoas de onde se sentem todos os medos uma fraqueza nas pernas um desleixo na faca sónica ao cortar o cabelo da raínha tornada arbusto no feixe jacto de terra
travo no whissky donado ferto she's coming over me estes rios todos confluindo e irrompendo de conas ignotas ígneas dadas à lamechiçe dos avós e das arcoadas passagens beijos?
PARA A PUTA QUE VOS PARIU ! tê, medo na migo nã sabes mas isto é para sempre nunca nada semelhante florará pelas terras doces do xangri-lá-lá
holoscaustenses tu quoque fili?
quem me dera ser esse punhal o coração e o coração não ser esse punhal
trespassado por sua dada mão
trinta anos e nove meses despuis la queque o que faz aqui este dragão a cuspir fogo a lamentar-se do que não é ajoelho e desfaço a cruz pele pelas horas curtas sinal refeito no cruzar de um olho no jogo de um sangue vasto trôpego latente lactante
vejo as nuvens as mãos no disfarce da sofreguidão do desejo da fonte que cerce rapa da língua o ar da fronte desenha o desenho da eterna recorrência
sabem-me vozes ouvem-me gritos de pés me vou estendendo pelo areal da vígilia trôpego sempre um cambaleio que se estende pela pergunta pelo corpo de outra virgem ideia fodível como deus não
tenho mãos e de vê-las sinto o paradoxo do susto retenho-me nos poros ao me lavar de flores tudo é menos que nada frágil fragilidade coisa que se não toca nem intui
- PÁRA -
não é deste chá que gotas soerão é daí desse teu sexo de mamífero e da parca condição de termos de nos termos mamíferos à força de tudo
agosto 02, 2006
 [espera]
quando o mar te invadir as mãos, e do crespúsculo receberes uma colher de sangue, lembra-te do gesto com que rasgaste a tua face
recorda-te dessa noite em que pelo deserto escuro te deixaste cair de ti próprio para estrondosamente te transformares em incontáveis estilhaços de espelho, vidros de areias geladas soprados por um sol negro de inquietação
havias escrito uma palavra, e dessa palavra nasceu uma rede onde juntas estavam as cores, o vento e o mal. das cores surgiram os corpos: paisagens, sonhos, peles, líquidos e substâncias alquímicas. com o vento vieram os gritos, os tremendos espaços, a viagem que nunca pecou por início ou fim, o movimento e as oscilações de tudo, a altura, os infinitos horizontes. o mal gerou a vida, o medo, o ânimo, a imaginação, a virtude, a memória e a palavra. tudo se cumpre em recorrência e holismo
essa cicatriz que te desfeia, não a tapes com os olhos. não a enchas com lágrimas. é o estigma que marca e simboliza o teu nascimento múltiplo e disperso. quando em desespero, lambe-a, sente o paladar agudo, e recorda-te, recorda-te dessa noite estreita, gélida, dilacerante. e recordando-a une-te dividido em todos os fragmentos reflexivos com que te passaste a apresentar perante o mundo, perante ti, perante o incompreensível abismo da existência
do bolso retira um verbo. age, muitos
julho 30, 2006
[the hermit - natasha gudermane]
tem calma. as noites e os dias só se sucederão até um qualquer final. os corpos cedem. os espíritos ardem e consomem-se como uma floresta de encantos. tem calma. os fios que descem das mãos são menos a necessidade que o hábito. to aim is to shoot. tem calma
quando a corrida é por um caminho largo parece menos agreste a saliva que cai sobre a tua respiração. não há cavalos que corram mais que homens. há apenas homens que não correm, que se deixam sucumbir à lâmina do intervalo que medeia o diálogo entre o sublime e a queda. tem calma. tem calma. pára de comer os dedos. ser-te-ão necessários quando por fim sentires que tudo é tão grande, tão vasto. tão freneticamente vazio
tem calma. e nessa calma procura as nervuras que indicam o percurso das maravilhas. adentra o silente mar, e deixa que essa faca procure não o holocausto, mas o apartamento do nevoeiro do mundo. tem calma. e que essa calma seja não dádiva, mas infinito perguntar e descobrir pelos espaços que se podem desenhar nesse universo vasto e potencial que és
tem calma. constrói o espaço das palavras largas. desvenda de ti o desconhecido com o cinzel da visão. afasta a terra, a sujidade dos teus pés. ergue-te mistério, nada temas senão o calabouço que possa vir dos teus vícios, do teu peso; da ausência da tua face no espelho, dispersa pelas mentiras, pelos falsos verbos. deixa-te ser vassalo da tua própria majestade. toca-te. sente-te. tem calma
junho 29, 2006
[merdadeviolinos]
o que escreveria se me pedisse para escrever que em certas ocasiões tudo parece plano falaria pictoricamente do que corta o inexplicável desenharia um corpo de terra escreveria um pedido para me pedir para escrever ou discorreria aquático pelos limites do desejo
se eu me pedisse para escrever contaria estórias de galinheiros sopraria fumos de enxofre alvo perguntar-me-ia sobre o que queria que escrevesse e outras tretas a um certo jeito de menear o dedo e levantado-me andaria andaria até à inexistência do mundo em busca do que escrever para mim próprio
junho 07, 2006
[cantu]
desprendo-me das mãos que me seguram, para mergulhar na faca que me oferecem. há sempre uma noite de repouso para as almas em fúria. cortei frio um bife. cozi-o. não gosto de fritos
após me ter vindo para a tua barriga, lambi o sémen ainda quente. soube-me a muito. partilhei-to. na língua crescia uma espiral de corte. disseste-me que tinhas fome. ofereci-te os meus dedos, como iguaria. incendiei-os flambée style, acompanhei com um bom rum. acordei, isto um dia destes tantos. em tempos aguardava que saissem bocas das paredes da noite. habituei-me a comer os dentes dos meninos que subiam às árvores e gostavam de andar de eléctrico. numa dessas ruas conheci alguém morno, terno. uma pocilga, que mais poderia ser
agora que me tocas com as tuas mamas modernas, sentindo-te como um elefante num deserto, há (do verbo haver) uma pronúncia que se espalha aos meus pulmões. palmilho um grande mar repleto de passados e futuros
conto-te estórias de embalar, desejo o teu adormecimento espalhado no descobrimento de tudo o que há por desvendar
sei de contos impossíveis como o presente, fragas latejantes onde corpos como o nosso despejam dos espelhos reflexos nus, memórias do que nunca será
isto é tudo uma grande mentira. como a vida. como os sentires. como os viveres. dás-me um pouco de sangue, e eu uso-o para escrever. não o injecto nos sonhos. falhar, bem basta os passos que se não dão. por aqui, foge-se constantemente ao tempo. prega-se a delimitação sem limite dos conceitos que, bem definidos, aprisionam o mais puro dos espíritos
constitui-se nas palavras que se dizem a ousadia de mentir. quem será herói? quem se assumirá demónio baixo? há algo mais profundo que o sangue, e tu sabe-lo. ou intui-lo. antes de se comer com garfo, com faca, não teriam os dedos uma importância superior?
ontem, deste à costa, náufrago. comi-te o rabo. e após, as orelhas. no fim, deixei-te o nariz. queria que em mim cheirasses o hálito a ti, sincera
junho 02, 2006
enfrentar o medo aumentando as suas causas e, meu amor, receberes tudo como eu te recebo a ti sem nada já morto mas com tudo para viver
[mocionar]
num dos lados de um dia sem nuvens um gesto varreu da periferia de um olhar a necessidade de movimento. dava-se por inaugurada a estação do tédio. todos já tinham um espelho pregado nas costas, e a teia de imagens que se intrincava pelo ar produzia uma sonoridade de tédio, tal era a confusão de curiosidades, membros e chapéus misturada em cada bocado do tempo parado. alguém disse: não fui feito para isto. imediatamente a força da gravidade e um dos olímpicos embrigadados se encarregaram de o suprimir com um toque de refinada elegância e desprezo: pregaram-lhe de peso os sapatos à terra, e, com caras de quem se importa pouco com o importar, disseram-lhe: e para isto, meu caro, foste feito?
durante a estória que suporta o desenrolar da estação de tédio, forças de uma transcendência demoníaca tentam transformar os rapazes e as raparigas em sombras, imaculadas de todo e qualquer propósito que não seja o de irem daqui para ali sem se moverem
por vezes um revólver ou uma faca surgem na mão de um réptil, que prontamente se oferece para recambiar uns dois ou três para o próximo nível evolutivo. sem sucesso, diga-se de passagem, visto as estações de tédio, ao contrário do que os emissores de sinais hipnóticos da 5ª esfera tentam num desespero autofágico fazer passar, na realidade recalcarem o instinto sexual, sublimando-o numa agressividade desértica. não se tem conhecimento de qualquer caso de sobrevivência de um réptil neste contexto. aliás, a única ocasião em que um grupo indistinto de jovens tem sexo é precisamente aquando da morte homicida de um réptil. passa asinha, contudo, logo quando o réptil não mais consegue fazer crescer a sua cauda
as estações de tédio fadam-se a si mesmas ao fracasso, visto tudo o que provoca a morte necessitar de nunca ser magno, sob pena de em si mesmo desaparecer. até a morte precisa de viver
e nas estações de tédio, plenas de riqueza solar e de possibilidades infindas, há um mar em que poucos conseguem ficar à tona de água. tem pouco sal, e as algas - produto da fantasia ociosa e do medo instilado pela cultura da fraqueza - praticam braços envolventes e limosos que forçam os já cadáveres ao abismo. neste mar, somente fica vivo o que é vivo. darwin, enquanto político contemporâneo, chamar-lhe-ia, quiçá, selecção natural com discriminação negativa (positiva?) conducente à idempotência. nietzche, se ressuscitado pela mão de um místico obscuro germânico como divindade de uma nova seita religiosa racionalista, talvez denominasse o fenómeno como a inevitável justiça derradeira da natureza frente à força da potência vital, herança do último homem (de que já ninguém se lembra)
entretanto alguém indaga, com uma voz débil de saúde extrema: qual será a última mosca a cair na armadilha da janela? não interessa. a ninguém
a estação do tédio tem como referencial a policromia imagética e estilhaçada da eterna vontade universal travada imediatamente antes de um precípicio qualquer. como sempre, aliás. algo virá a seguir, inevitavelmente
logo, venham daí fariseus, pintem no chão uma cruz. a vossa. marquem-na a sangue na terra e no betão. ele na realidade não vos serve de nada. enquanto produto, dificilmente se vende. mesmo enquanto tinta, é demasiado solúvel para permanecer. e como símbolo.. bom, um símbolo é algo de perigoso, caso se lhe não dê um conjunto de fronteiras muito bem definidas. um símbolo à solta é um inimigo das estações do tédio: gera movimento, calor, caos. recria-se entrando e saindo perpetuamente pelas muitas portas do mundo. mija do cimo da umbreira para o tédio, em meio às gargalhadas cruéis das primeiras idades de tudo
maio 29, 2006
sabes o que se inscreve nos altos portões que antecedem a vastidão dos desertos?
que por aqui só passe aquele que treinou a apneia em águas abismais
tudo para pedir - pouco um café um pouco de tempo um holocausto de preconceitos umas dores de compreensão e de não-crescimento uma paisagem que se possa construir em liberdade umas gotas do veneno da verdade, uma qualquer que seja sempre um descobrimento?
o pano destas mesas é sempre uma oração solene a tudo o que eternamente se cobre por vergonha ou um qualquer medo de cabeceira que sirva para que o sono não seja pesado, perturbador nem para nada seja necessária no sono a apneia - metem medo os grandes espaços, provocam vertigens ao contrário
ah! matem-se os sonhos de uma vez e respiremos todos a uma só nota contemos todos a mesma estória com o mesmo enredo no mesmo tom de voz fraternidade e igualdade universal por fim no zoo humano que disto de viver cada vez mais se diz ser uma valente maçada
obrigado já agora, pode-me trazer um copo de água? é que cheira-me a portas. e a deserto e, não querendo abusar, apanhe ali do chão aqueles corpos com os olhos em decomposição
maio 19, 2006
[kraaaaahhg]
fossem as cores um inferno de mandrágoras e nenhum sexo se poria de frete à porta de ninguém
tivessem as portas a figuração de um sorriso e as casas só existiriam nos sonhos das rochas
reinam os pedidos nas mãos lâmpadas de cristal ressabiâncias enevoadas
orgasmos discurso directo aviam-se umas quantas meninas espelhadas parar. respirar enrolar os olhos no novelo de sémen
vinhas somente uvas meu amor
das quantas certezas um braço toca outro quebra-se simples o anterior universo
maio 16, 2006
a informação toma conta de nós. usa-nos. vou absorver a máxima que puder, mesmo significando isso o meu holocausto. é o meu derradeiro acto de humanidade. não me sigam. não caiam na tentação do conhecimento. há sempre uma discórdia para semear. uma necessidade de ignorância que vos defende da informação. que vos defende da morte pelo aniquilamento do caos. eu sacri
fico
co
-
me
por
nós
[palminhas!]
maio 10, 2006
deixa aí o sentido todas as árvores se alimentam da terra e das estrelas se retira a sede de comer as trombas aos elefantes enterrados
falos grandes como o passo do bêbedo ocluso eclipsado na bonomia com que coze as suas entranhas numa espiral de sonho de pesadelo onde falas de grandes árvores de geometrias paralelas para lá do abismo do tédio
as mãos de quem sofre estão manchadas de desejo
[lobidrunq]
vive ao meu lado o bêbedo original. recusa-se a sorver água. prefere a sede. e dos seus olhos nascem dedos de coral, que percorrem o espaço num lampejo eterno de devassidão. procuram as fontes, os lagos, os miradouros de almas aquáticas. nada encontram os seus olhos, pois de rocha é preenchida toda a sua realidade. e nem nas infinitas ninfetas que florescem da sua imaginação doentia se percebe um vislumbre de algo que não seja inocente, tal é a maldade que infecta os seus intestinos de ouro. somente no outono algumas folhas caem sobre o seu copo de vidro, arrecadando pelos inumeráveis bolsos cosidos às suas costas uma míriade de conchas e deuses esfumaçantes. tudo então é de um alívio atroz, e nem os gritos que se propagam indizíveis pelo espaço cortado conseguem disfarçar o facto de de um corpo nada mais restar que os náufragos, espalhados por quantas ilhas mundos existem. mas o bêbedo original esquece-se do texto, e de mundos apenas resta uma etérea ideia de fogueira. tudo o que lhe entra nos dedos se reveste de uma cristalinidade aterradora. os homens e as crianças não têm sexo, e das flores nem um entrave se coloca, quando pairando sobre o húmus cagado na terra assombrosa, do seu esófago emana um assobio sedutor para o alvo divino das grandes verdades estéticas. coloca-se o peixe sobre o pássaro, e do passado nem sombra de memória: apenas umas cicatrizes de comichão, cócegas de alcatrão e músicas. líquido após líquido, transtorno de balcões sedentos de cotovelos, de perguntas de frutos pequenos e amarelos. gritos, muitos gritos, e animais, bípedes, demasiadas verdades, demasiados cotovelos, demasiadas mãos para a coordenação ensinada. e, então, a divisão do bêbedo em bibliotecas, e o bêbedo, e as bibliotecas: o confronto da laranja com os gomos
abril 23, 2006
numa península deumar negro o oráculo do grande oculto deu ao vento asas de sangue e indagou-o acerca das coisas da altitude
o teu papel é o da semente que se abriga na terra e das tuas raras palavras nascem os ciclos e nos teus mistérios se renova o ecoar do tempo
o teu papel é o da semente que guarda o templo da terra com a arma da tua morte mal abandonas numa fúria o seu seio pois a altitude não pertence às tuas mãos de verbo acabarás para sempre insatisfeito na deficiente operação sobre o mundo
o teu papel é dar-me asas pesadas como o que se move pela absurda fragilidade de existir
e tu não existes fora da porta que és para o infinito
abril 10, 2006
quando olho para o espelho e vislumbro um rapazinho nas minhas costas, não penso ser eu o botto, que esse os preferiria ver de costas. as costas que eu vejo são as da minha cara, límpida, e tanto tempo passado, tanta merda engolida, tanto holocausto perpetado. lembro-me de alguns mitos que envolvem maldições sem origem. a minha talvez seja a dos olhos, talvez passe pelos lábios e se estenda à fisionomia lábil dos dedos, sem deixar de cobrir o sexo do rapazinho de um desejo constante de crepúsculo. quando olho para o espelho e vislumbro um rapazinho nas minhas costas vem-me à memória um conjunto largo de memórias de um futuro que nunca terei, e às narinas a marginalidade de umas quantas de lágrimas mal vertidas. mas quando olho para o espelho e vislumbro um rapazinho nas minhas costas, corro para a janela procurando a lua oculta pelo muro fragmentado de nuvens. e dá-me vontade de fudir. não sei se o rapazinho, se algum lugar disperso e eternamente reinventado entre a terra e a lua. o verne devia ser pederasta. sorte a dele. as lágrimas que caem na terra não vêm da lua, muito menos das nuvens, quanto mais de mim. já não tenho olhos há muito. um dia, num passeio sob um sol vermelho, senti demasiada aragem nas órbitas oculares, e um choque de bolas de chumbo nos dedos do pé. uma mão largou-me e provocou a invocação da recordação original: a uns coube em sorte o polifemo; a mim encomendou-me o fado ser um daqueles monstros das descobertas com apenas uma perna. não é uma vantagem evolucionária. mas ter olhos era-o supostamente, e passava o tempo todo com umas dores de cabeça horríveis que começavam no vislumbre de um rapazinho nas minhas costas, e se propagavam até ao horrível hálito que se me desprendia do umbigo. abençoado momento. afinal, que é uma dor de pé, comparado com o insustentável peso da cefaleia constante? ao menos, agora, quando olho para o espelho e vislumbro um rapazinho nas minhas costas, nas da minha cara, basta-me olhar para qualquer local, totalmente ignoto para a minha visão de infinita miopia. que me foda o rapazinho o que queira, que o que ele foda para ele nunca se voltará. porque só os olhos se voltam, e, esquecia-me, jano não tinha somente duas faces. o rapazinho aparece em todos os estilhaços do espelho, desesperado de ser apenas mais um rapazinho - no fundo igual a todos os tantos outros - que vislumbro nas minhas costas, grandes e escarpadas do sol que me cegou. por vezes tenta-se acabar um texto com um dito que fique. que se foda o dito: dito que aqui deixo um dos meu olhos de chumbo. agora escreve o que dito
abril 09, 2006
no passar da gota de água intacta absurdamente inteira pelo infinito espaço nascido da palavra em suspensão se revela a insuportável fragilidade de nós acaso areal
março 30, 2006
[umgoning]
sempre numa esquina me acho a partir e nada sinto abaixo dos pés acima das mãos que se não nutra do gesto da viagem do gosto indignado da vida que teima em ousar viver visto ser em mim o alimento que une a ortogonalidade dos paradoxos a solitária semente de um futuro cheio de saudades
e expludo pela treva quando o verbo é de desejo - os nomes de amargura a sombra inscrita nos olhos a concentração contínua da eterna vontade de tudo lacrimejada de um extremo ao outro da pele como se um dilúvio limpasse esta terra acre do recorrente pecado de existir
existindo parto para nunca deixar de descobrir
março 21, 2006
 [odmoni]
tendo como ponto de partida o fim, impera voltar ao início para se poder descobrir quem na realidade se é. empreende-se então a jornada: um pé primeiro, outro de seguida; passos que principiam inseguros, ganham cor, forma, cheiro, velocidade, em direcção à destruição do tanto que impede a liberdade da existência. as roupagens empregues na viagem são da cor do desassossego, do questionar incessante, doloroso, dignificadas pela purificação dos sentidos e das experiências assim nasce a narrativa, melhor dizendo, a batalha entre o que se situa a montante e a jusante da palavra, limando-a com a crueldade empregue para com o diamante. ateiam-se os fogos, prepara-se a fornalha, ajeitam-se os cadinhos, despeja-se a matéria prima a partir ao rubro da destruição. verte-se o líquido sangrento no molde, só então se percebendo de que molde se trata. surgem, a par dos passos, as palavras, os significados destruídos e renascidos a partir das cinzas do caminho alcança-se um ponto mais puro, mas não o suficiente para o alcançar do sossego: aí mora a perfeição, inalcançável não por definição, mas por confissão do que se vive, do que se sente. mais viagens se empreenderão, mais corpos serão descascados, descaroçados e apresentados à boca faminta dos dedos. do fim alcançou-se um outro meio, mais alto e de ares mais rarefeitos à paragem necessária, inscrevem-se nas asas fatigadas as cicatrizes recolhidas nas etapas da viagem, contemplam-se as mudanças ocorridas no ente. mastiga-se o gelo para saciar a sede; permite-se a morte ao corpo, sob a promessa do cumprimento eterno da dívida: ir, sempre
março 14, 2006
[a uma das culpadas do holocausto, saudades]
há sempre primaveras para os que têm pele de cristal e do barulho surdo da escuridão para estes deuses uma oferenda de eterna aurora despertará as cores do mundo das águas lustrosas da melancolia
são os dias e os seus habitantes ambos estilhaçados por todos os lados ambos fados fortes e feros amortalhados gotejares de berros ululantes vivas à morte em adoração ambos de famintos pelo temer que puro se floresce na noite
e com o latejar de mais um nervo pelo desequilibrar insignificante de mais um gesto que acorde das palavras a chama pirómana formalidade do verbo advirá a última chuva cessará a escuridão excessiva do inverno findado estará o dia frio
porém o tempo parecerá não se ter sobressaltado pois os gestos dos que se tapam numa sala de espelhos opacos serão idênticos ao que eram ontem e a florição só será aparecida aos anjos que não se encontram dentro de nada e em tudo transparecem
março 11, 2006
[o menino do senhor homem]
"se queres comer-me o coração com as mãos, tens primeiro que me dar um, um que te caiba na boca"
"há um cálice de mulher rubra e negra, cheio de néctar, que preenche de ramos a árvore das folhas caídas"
autoria relativamente desconhecida
numa tarde, num fim de dia, passei as unhas por um vidro. ouvi um queixume. o vidro enegreceu-se, começou lentamente a escorrer por sobre si próprio
dirigi-me à casa de banho, ao armário dos remédios. lentamente rodei, um a um, dois ou três mil frasquinhos. li todas bulas nas poucas embalagens ainda existentes em busca dos melhores efeitos terciários. constatei padrões com minúsculas diferenças em todos eles. devolvendo ao armário a sua aparência exterior de espelho, conclui que é consideravelmente elevada a probabilidade de todas as facas servirem para os mesmos fins: cortar palavras materializadas em impressões cutâneas corporizadas, por forma a ser possível reduzir no menor período de tempo a entropia de um corpo maior em dois mais pequenos, mais passíveis de digerir
todavia, a ciência sincera teve a ousadia de afirmar (e eu de aprender) que fica sempre algo da palavra no gume da faca. e fica tanto quanto mais romba ela é. permanecendo estático frente à gaveta aberta, com a faca presa numa das mãos, na que me era transparente, olhei inglório para o seu gume em busca de todos os restos que nele ficaram desde a aurora dos dias. sou míope, nada vi. mas sôfrego desse caótico alimento, navalhei mais uma vez a planície agreste da língua. e da faca recebi os despojos do tanto que alimenta e perpetua no mundo os incêndios; na faca foram novamente alterados os absurdos equilíbrios dos abismos que se erguem e apresentam apenas na imaginação
com o sangue de cristal que escorreu do gume pintei uma das muitas faces da faca de um vermelho que era todo vermelho na minha miopia. cerrei a gaveta no interior da mesa onde nunca comia, e as cores de tudo não se alteraram. apenas senti a porrada da tempestade que se abriu sobre o meu corpo de caranguejo
dirigi-me, lateralmente, para o vidro raspado. o vidro já se tinha dissolvido a ponto de romper o hermetismo da casa; daí a tempestade e o precipitar dos acontecimentos. havia uma tarefa a levar a cabo: o rosto reflector do armário devia sobreviver sem barbitúricos, ansiolíticos, anti-histamínicos ou retro-virais. poisei durante uns anos a faca junto à base do vidro cada vez mais liquefeito, com a face onde se escondia o conhecimento virada para a torrente paciente que escorria do topo para a base, com o gume a acariciar a pele desvirginada, opaca do vidro
após essa mesma tarde, nesse mesmo fim de dia, se ter repetido incessantemente durante um deitar suficientemente vago e temerário no lençol outro das ocorrências, ouvi um uivar de alcateia: chegara a doçura que mata da noite. ergui-me, recoloquei a faca numa mão, desta feita na mão concreta e visual. olhando para a faca, reparei como se havia formado, na face onde a água vermelha recebera o vidro liberto, uma espécie de pomada aparentemente impossível, dinâmica, incolor, semelhante a um tempo que ainda viria. de seguida parei e apercebi-me que a tempestada se mantinha, que nunca iria findar ou sequer procurar-me noutro local, noutro corpo, noutra cara
chegando de lado, pé ante pé, à entrada do quarto (sem porta) estaquei. abri e fechei as pinças uns pares de vezes. não quis remédios que se ocultassem por de trás da minha imagem misteriosa e verdadeira. continuei para a casa de banho. abri a portada do armário e tornei a fechá-la. ergui o braço, ajoelhei a consciência, e barrei a pasta de susto que se formara na face antes cimeira da faca em toda a face que consegui descobrir na enorme miopia em que todos vocês, os que chamo e que me chamam, preenchiam o meu olhar
março 09, 2006
[alvo]
senhor homem porque te escondes senhor homem porque ousas escolher senhor homem se do teu suor viessem flores senhor homem não as comerias tu? senhor homem se te saísse do espelho um menino senhor homem que escolherias tu?
março 08, 2006
[dotzee]
há estas coisas tão esquisitas como a morte e a dialética e todas as fases que se desencontram intermitentemente na regular doçura do mundo e há as pessoas e há as pessoa sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss e hááááááááááááááááááááááá as pessooooooooooooooooooasssssssssssssssssss ssoaaaaaaaaaaaaaaaaaaassssssssssssssss há seeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmpreeeeeeeeee asssssssssss pessoooooooooooooooaaaaaaaaaaaasssssssssssssssssss
que se esquece de lembrar das peeeeeeeeessoooooaaaaaasssssss
um pouco como a lança e o fígado trespassado nunca nada se passa antes de acontecer um pouco de praia não lembra o verão tal como com co como a lança não imagina o fígado sem que o tempo andasse para trás e para os lados e algo parecesse acontecer mesmo sem a explosão da palavra
as peeeeeessoooooooaaaaaaaaaaaaaaaasssssssssssssssssss?
estes são os lábios estes são os arco-íris dos dedos dos olhos e da boca:o apocalipse
fevereiro 17, 2006
e agora, pacificados, masturbemo-nos
[fit]
talvez que quando foges algum fogo se te desperte no caminho, e das longas silhuetas das montanhas surja a impossibilidade da simulação do teu corpo nas tuas palavras. são de indústria os gestos que suportam o estendal do hábito, preso nas suas necessidades de vento e de água pesada. provocam poluição. são insustentáveis a prazo da verdade. e é desse teu fogo, do tal que surge pirilâmpico e aterrador à dispersão dos teus passos nessa terra fechada, que poderá surgir a esperança da paz. não. não da paz. do espaço que da partilha do significado do tempo e da necessidade surge e se nos apresenta como praia longa e deserta. como a paz, mas com mais mar, com uma caderneta infinita de horizontes, com uma dignidade imprevista de inevitabilidade, mas com força, com vontade, com luz e escuridão e mais para lá disso. calhei-me eu mesmo como luva. talvez se esse fogo vier, se me apanhar logo antes de dormir, em mim o desejo destrone o torpor e dos meus dedos se insinue a terra que te permita esse ansiado fogo, te modele em negativo da terra no céu. como as longas silhuetas da montanhas. como o preenchimento do teu negativo pelo espaço criado pelas minhas mão de vidro
fevereiro 15, 2006
[montategem ]
encontra o teu espelho esbranquiçado nos dias cor de sapato opaco de música aquando da janela que se desenha na bochecha velha da testa
encontra-o e não mais o fales excepto nos fossos frágeis da escuridão onde a possibilidade das sombras se resguarda do olhar e todas as paredes te lambem o ouvido com as delícias do proibido substituindo toda a hesitante agitação do ser claro pelas chamas vibratórias do tanto em ti que por ti clama
emprenha desse segredo transforma-o num parasita infinito transforma-te no espelho
fevereiro 12, 2006
[Foto: Carlos de Mello no livro do álbum "Viagens"]
saio um pouco fora do caminho (como se existisse algum caminho fora do caminhar que deriva em caminho). todavia, confesso fazer-me alguma confusão toda a estória e enredo em redor dos olhos (e óculos escuros) deste senhor. bem sei que o ídolo está no palco, acima do público; e que o desconhecido gera tanto temor quanto atracção; e que o sugestionado, o implícito é largamente mais apreciado, tem mais força, que o explícito, o objectivado. sei bem como funciona o erotismo: através do jogo difuso e narcótico entre o que se dá e o que se insinua poder ser dado. erotismo é jogo da imaginação potencialmente materializável. e o 'pessoal', obviamente, é gratificante e literalmente conduzido por este tipo de labirinto. irrita-me é a constatação da construção e sobrevivência dos ídolos serem regra geral elaboradas em cima da crendice e falta de sentido crítico da grande mole. irrita-me ainda mais ter sabido que a fotografia acima exposta, constante no book interior da 1ª edição do CD Viagens, aquando da 2ª edição vinha com uma barra preta por cima da zona dos olhos. ou seja, entre um instante e outro algum espírito iluminado lá descobriu como ajudar este senhor a transformar-se num ídolo a sério. falando em nome estritamente pessoal, irritam-me idolatrias. consequentemente irritam-me ídolos. consequentemente irritam-me ainda mais as toupeiras que fazem da eridição de ídolos um modo de vida - "ei, é apenas o meu trabalho. não faço juízos de valor." -. afinal o pós-modernismo não era a queda de todos os referenciais, a eliminação progressiva das barreiras simbólicas que ainda impediam a progressão para a próxima fase da transcendência do humano? não era estes tipos todos pós-modernos? lembro-me sempre que a liberdade é, fora do dicionário, um conceito com uma interpretação (e uma vivência) não só bastante subjectiva - e portante predominantemente egocentrista - , como também estupidamente subordinada ao interesse, pessoal e do rebanho onde o animal se movimenta. pessoalmente (desculpem a insistência, mas não quero que os meus amigos sejam perseguidos pela polícia de costumes por falta de tacto meu) não concebo a conciliação da liberdade com ídolos, mais simbólicos ou mais concretos. a idolatria prende, cerceia, encurrala e leva à intolerância. não tarda ainda temos o clube de fãs do abrunhosa a querer queimar a sede de algum jornal que se lembre de publicar uma caricatura dele sem os óculos escuros e com uns traços faciais a puxar para ao símio... vá-se lá ver. se alguém se lembrar de fazer o movimento cívico 'desoculem o abrunhosa' (está na moda, não é?), contem comigo. bom, agora, em paz, fumemos
fevereiro 02, 2006
último o poema que se escreve findo enfim como cada adormecer definitivo como o choro cobarde dos convivas último enfim como a serpente que nada em areias e pela filigranas do sonho teima em morrer
taat
janeiro 25, 2006
[a ausência]
dizem-nos que está tudo bem: apesar de batermos de porta em porta, e de vermos quadros pendurados compulsivamente e com rasgões aleatórios de loucura. procuramos saber nesse dia como desapareceram, se foi de repente, se deixaram cartas a avisar, se pediram mais um conhaque antes de se despedirem, ou se simplesmente fecharam a porta e ficaram do lado de lá
e encontramos silêncio nas respostas. tudo aquilo a que nos propomos conhecer fica envolto em lençóis escuros que deixaram lavados - e ainda quentes - com beatas de cigarro ao lado da cama, com revistas folheadas e abertas por cima das almofadas. percorremos o resto da casa, chegamos por fim à porta de entrada onde tudo continua intacto, insanamente preservado, como se ainda hoje nos sentássemos aqui, a olhar para a televisão, a ver os nossos dias - a imaginar as casas, os filhos, os empregos - e a continuar de olhos abertos, as mãos a mexerem em folhas riscadas sem quaisquer palavras
mas, de quando em vez, decidimo-nos a escrevê-las, para que se sinta menos a despedida - como que se ela não existisse ou como que se nada fosse dito naquele momento
e de qualquer forma, os corpos afastam-se, ininterruptamente, a passo lento; olhamos a estrada ao longe com as roupas a assemelharem-se a sonhos quebrados, com as mãos por fim cheias de algo que não conhecemos - com a cabeça longe em mundos distantes do nosso
crescemos assim. habituamo-nos a ver aqueles que conhecemos de costas para nós, a mão direita a acenar rente à anca, num gesto esquecido de dizer adeus, para que haja algo a separar-nos para além de cartas
a partir daí, será como uma fotografia desfocada: relembraremos aquele que partiu, naquele dia, a agitar a mão para nós como se não estivéssemos ali; as costas ocupadas com malas e rostos e nós a bater a portas de quem não conhecemos, a anunciar que este ou aqueloutro partiu
por fim, deixamos de os conhecer - deixamos de lembrar os lençóis quentes, as revistas abertas a meio, em artigos de saudade ou de descrições vagas sobre sexo; deixamos de ver arder as beatas de cigarro no cinzeiro azul, ao lado da cama; esquecemos que deixámos a porta aberta com a corrente de ar a crescer por dentro de nós: e a imagem da tua mão a acenar, ligeiramente, junto à anca, e eu a lembrar o teu rosto, apesar de me dizerem que
está
tudo
bem
janeiro 18, 2006
[disáire]
cresço nos teus olhos como uma hera infligindo na percepção aguda da lua sombras onde nunca elas pertenceram e infrinjo-me deitando-te na cama em que morro reticente como uma mentira que em se derramando alarga aos dedos o horizonte fugindo traz o encontro mostrando corre veloz pelo limite da veia
cresço cerce e na barreira me encontro prenhe como uma cona inchada de medo
há um limite para a fragilidade una barreira que se não pode quebrar sem se nascer sem se morrer antes que a hora venha última como o poisar na almofada a cabeça mostrar que o prazer é morte e a morte apenas um fim
é de gelatina esta noite e eu como-a e eu como-a como se come um pescoço uma pá de trazer no carro para de areia erigir castelos obras fátuas
é talvez demasiada esta paixão por tudo obra única de uma mão que durou um minuto e morreu cancro que assim nasceu no espelho da flor que no teu cabelo dormiu
janeiro 16, 2006
[anjeluci]
"Sabe a laranja a casca de uma boca..." [de D. Mourão-Ferreira, fornecido por alguém que bateu por aqui, talvez com a cabeça, talvez com as unhas]
são gomos de acidez viciante os dentes que se descobrem no abismo de um corpo ou de outra paisagem qualquer desde que boca desde que laranja desde que da mão ao cadáver do desejo não diste o palmo de tempo que leva o sol de inverno a aquecer uma língua de mar ou uma casca de laranja a tingir o chão de prazer
janeiro 06, 2006
[man seashell]
já ninguém pensa no grande desconhecido. já ninguém foge à tentação de tentar sempre estar o melhor possível com o mundo. as pessoas têm embaraço de si próprias, refugiam-se a cada instante numa das muitas máscaras que o grande jogo humano lhes vai pondo à disposição. já ninguém gosta de se ver nu. a sua cara no espelho vai-se progressivamente dissipando, como se uma miopia atroz atacasse fatidicamente o próprio sentimento de si. estão todos virados para a frente. todos. e do poço de mistérios que lhes serve de plataforma tiram apenas a água que prolonga a existência. já não é vida, agora é existência. já ninguém gosta de inverno, do inverno que se vive à chuva, ao frio. todos têm aquecimento central no espírito, e uma alma docemente confortada no sofá do entendimento. já ninguém ousa ir do cabo às grandes perguntas. todos vão passar férias de avião. talvez apenas os fisícos teóricos e uns quantos de desarrazoados delinquentes mentais que se deixam passear por aí apenas para que incendiados na praça consigam iluminar por instantes os caminhos de um ou outro miserável transeunte que ande a precisar de, através da dor, reaprender que há que evitar a luz: a escuridão é o caminho eleito
janeiro 05, 2006
surgem os fogos pela sombra insinuados corpos pelos labirintos efémeros as mãos de quem toca rasgando pela música das ideias imagens de um preto indízivel
lembras-te dos olhos dissipados pelo calor dos dias encarnes e vás pelos póros fora das mãos e lagos és mostrando dos nervos a intangibilidade dos beijos o ar que à vela traz a luz impensável e trus trus na porta avessa
haverá dedos para lá de nós
janeiro 04, 2006
lembrei-me há pouco, num assomo de loucura, tudo aquilo que já esqueci parecia a copa de uma floresta de espelhos estilhaçados que reflectia em cada folha
em cada folha morta a mesma lua em cada folha morta
dezembro 26, 2005
tenho um animal incandescente a carbonizar a floresta onde me perco e escondo ninguém o vê ou não o quer ver e ele queima inocente a noite e ele queima inocente a noite
dezembro 22, 2005
[the touch - natasha gudermane]
risco o poema antes de o haver escrito pois nesta casa de vento apagaram-se as portas as janelas através das quais se via distante como nós o horizonte inexplicável a folha alva que grávida por palavras ensandeceu de tão cerca se esconder de ti
e escrevo no tecto desabado relâmpagos e sou homem-fátuo destinado ao desatino de me apagar antes de me escrever joelhos levitando sobre o teu corpo mãos largadas ao luar
dezembro 19, 2005
 [attrakk-jo]
transportada a alma do mundo para o desconhecido dos teus olhos vejo-te magra e sedenta de tudo como uma miragem sonhada de um mar que a si própria se sonha e recria
e, digo-te, é meu o terror que te passarei com estas mãos, com esta pele de magia feroz é meu o desejo de ser nada que não queira que sempre sentirás quando to exigirem é meu o êxtase da alegria e da dor dos teus arrepios e da tua melancolia é meu o desenho vermelho que descobrirás marcado nos teus lábios no teu esplendor de amante de tudo na tua complexa e extrema fragilidade
é tudo meu, e dou-to, mesmo que o não queiras pois tu és a fuga do tempo em mim e com ele cirandarás por sobre as minhas cinzas pele desnuda espírito alto e aéreo asas de relâmpago debruadas a vontade e desejo e terás a minha pequenez de gigante a assobiar a canção da entrega e da morte
sei que te elevo inimigo de gume afiado com dentes grandes e uma fome maior ainda mas, sabes, descobrirás que amor e o ódio são nada dado o desapossamento do mundo ao colapsar inevitável das ilusões que não nasçam em ti: sabe sempre que os teus pés nunca estarão onde te dizem que eles estão antes noutro sítio secreto que somente alguns conhecem aqueles a quem interessa o sonho o subir os muros e as árvores o entregar-se sem medo do ontem ou do amanhã o fazer amor em mulher como em criança faz perguntas e ousar pensar pelas próprias entranhas e enfrentar o medo aumentando as suas causas e, meu amor, receberes tudo como eu te recebo a ti sem nada já morto mas com tudo para viver
repito-te o que de mim já antes saiu “vem, tudo te espera” junta-te a esta turba inquieta de salteadores e piratas da vida que ingressaram sem conhecimento na breve viagem da experiência transcendente que é respirar por todo o lado em que não haja ar, antes alturas, abismos, interrogações
assim, vem daí, seja eu o enchimento do teu catre o alimento dos teus abraços a semente que te ornamentará das pétalas e veios que em toda a tua beleza devolverás ao grande mistério como se flor de lótus regada pelas lágrimas sem sal que chovem e sulcam os traços do país sem fronteiras que sem o saber ou intuir para ti fui sonhando e erigindo sobre os meus próprios escombros
cabes na palma da minha mão segura mas és demasiado grande para te conseguir conter em mim portadora de tanto que lembrei e mais que esqueci e espaço vasto infindo indefinível onde nunca conseguirei chegar pois é do cimo da minha cabeça que partes criatura de luz nascida sob o signo da minha sombra sem cor nem contorno com o gérmen da maldição abençoada que é o beijo do meu peito disseminado pela largueza dos teus lábios pelo segredo infinito que se oculta no teu sexo nas tuas palavras em ti
chega toca-me mas não me sorrias que é do lado da vida que me tentas presentear e se sorrires olha-me bem descobrirás toda a ternura que o mundo não quis receber e que, inesperadamente, te aguarda e anseia para se escapar de mim para te alimentar os dedos de curiosidade e os braços de largura
dou-te um bocado de mim viagem não meu, só tu ouve, que o caberes tu na minha mão é poder eu com um mundo e o adormecer-te com o cheiro do meu corpo impossível é perder-me na melhor e mais mortífera das drogas e seguir eu viagem eternamente em ti é uma dádiva duvidosamente merecida comer do mesmo prato dos deuses enquanto tu brincas choras amas e vives por cima da minha cabeça no sol quente da minha sombra a pintar de ti o grande céu
tudo através de ti existe - é mudança e magia e os pássaros a voar quando te retiro do primeiro ventre da terra te separo das raízes e dos bichos antigos encostando-te bem á minha cara para te marcar e ganhar coragem para fechar os olhos abrir os braços e largando-te na areia desaparecer com a tua primeira dança em meio ao grito esburacado que te dirá o teu nome e te levará para sempre comigo em ti
dezembro 18, 2005
[atropos]
após um movimento eis surgida a doce insatisfação dos dedos dentro dos dedos dentro dos ventres levíssimos escorrega e nunca sabendo de onde cai lambe dos teus gritos toda a solidão com que te calas desapareces te transmutas de alquimia em desejo e falas com ténues virares de cara por sobre o horizonte de um corpo por sobre a voz mais alta de ti de onde nunca te sabes e cais sem asas nem substância apenas uma vontade de te seres e a percepção da concretude grande bolha de sabão o espelho sem alfa sem ómega sem um sumo do teu seio que turve de imagens o medo do vazio e descarregue pela abóbada quebrada dos teus cornos a cornucópia vermelha e suave que a tudo envolve que a tudo renova que em tudo suspensa permanece lábil intensa de gume desesperante pétala de flor em inverno que no mel provoca o azedo nas narinas o ânimo no sal as gotas de lágrimas pesadas com que se escreve um poema no sal a mão que te adentra pelos pulmões e te força a respirar uma inspiração de lâmina que te transforma na violenta imagem do sangue em que tudo existe em que tudo se renova como se estas palavras fossem - declamadas a cal viva por todas as peles do labirinto - a expressão exemplar da extrema sensação de fragilidade que te percorre da espinha o mar e te abandona ao susto de ti mesma
nua
|
|
|