[the wolfs face - natasha gudermane]
as árvores gritam
refilam, praguejam
- larga-me macaco viciado
- para de me desperdiçar como se fosse pau caído
- firmo-me no meu próprio pé
- desde antes de haver tempo
no jardim um velho tira para fora o pénis
não consegue urinar
agita o sexo morto
procura no líquido a vida escoada
desgraçada pela necessidade de adubo
assim se cerra a janela
se passam com drogas três miúdas abandonadas
em círculos
em espirais de revolta
de insurreição ao sangue da menarca tardia
e da janela vê-se luz
folhas vermelhas na primavera
quando tudo deveria estar submerso na terra
inscrito na germinação das árvores
passam os passos
passam por tudo e em nada deixam marca
são passos assépticos
a povoação do mundo
a perfeição do mundo
surge um galho quebrado
roubado da maternidade que semeia o ar
aparece numa bancada de livros
num chorrilho de palavras
vendidas trocadas falsas de uma angústia natural
numa bancada vazia
um galho apenas
cor de goelas
- larga-me, macado viciado
- que não falas a minha língua
- e eu percebo tudo o que não dizes
o opúsculo que traz a explosão ao espaço
rasga nas artérias brancas o tempo
e consegue
à força do polegar
esquecer-se do acolhimento onde tudo se cria
onde tudo pode morrer em paz
tudo se assusta quando o grito não vem
e das portas não surgem as sombras das casas
dos quartos
Posted by moura_x at
03:51 AM
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pela enseada da noite deambulam duas sombras. duas das sombras que assassinaram os seus deuses quando eles subiam pelas escadarias de um prédio, após o render do sol
passeavam-se impunemente com a inconsciência que só os cães, os vagabundos e as sombras conseguem ter
fala-se de vampiros, e do temor obsceno que estes têm relativamente ao grande disco solar. pura mentira. ou pelo menos, brincadeiras de crianças. dos vampiros diz-se ficar pelo menos um resquício: as cinzas. a pura tragédia: a das sombras, aprisionadas pela maldição universal ao pulsar cíclico e constrangedor de corpos expostos a uma luz. e não é de fácil digestão o paradoxo: as mais sinceras criaturas das trevas são meras invenções impensadas de blocos com peso e forma, mas acima de tudo da luz
e iam, em direcção ao nada, onde tudo finge existir. iam, e pelos seus passos invisíveis cruzavam-se aflições e esperanças. nas sombras as prisões da luz: só a luz as faz nascer, só a luz as mata de si próprias
à hora cimeira alcançaram a beira da água: atravessaram o rio, o tal que tem uma enseada da noite. durante o dia não existe tal rio. apenas barcaças, e braços que se agitam num movimento ansioso do ventre à cabeça. e uma foz que não alcança nunca o mar. e pessoas. e olhares. e cheiros. e crianças. e velhos. e luz e sombras presas. e praias em que a maré é de areia e de garrafas de vinho esvaziadas. e nomes. muitos nomes. mas não verbos. mas não nomes libertos de si mesmos. e sombras presas
porta de um hotel de luxo: o porteiro pergunta às sombras o que desejam. apenas o porteiro, que fica imobilizado à perda da sua sombra. entram no átrio três sombras. passam despercebidas pelas putas de luxo, pelas baforadas dos charutos que seguram as suas vítimas numa suspensão de fraqueza racional. optam pelas escadas: até à porta que cede lugar das entranhas do edifício ao terraço altaneiro
[daimon - miguel marques]
sentado no parapeito sul, um homem. nú, a fumar um charro de super skank (as sombras têm olfacto), a masturbar-se lentamente. as sombras param, pelo lado esquerdo, pelo lado esquerdo, por de trás-ele. o homem fecha os olhos, da sua boca um suspiro; da sua boca fumo que se escapa lentamente; do seu corpo um início de terramoto. a sua mão pára. alguns segundos, e o charro é levado, num semicírculo incendido, ao lábios, grossos. o ruído da cidade continua, numa insensibilidade atroz, infantil
as sombras olham para o horizonte pressentido
só as sombras conseguem ver o trapézio que rodeia a paisagem durante a treva. e para lá das cores, para lá do ruído, para lá do frenético pulsar pendular que se estende, em tapete maior, pelo chão violado da terra, sabem que há uma mulher estendida no chão
o homem continuava, quando de novo toda a cena se repetiu, uma palavra foi dita em surdina, o charro ganhou o caminho da gravidade, o homem se lançou em oferta no vácuo: do seu sexo saiu uma raio de luz, um grito estendeu-se na noite, sombrio como o gelo, frio como a noite
só então as sombras se apercebem, em meio ao deslumbre do tempo parado para sempre até ao infinitésimo momento do embate no chão, que não sobrou cheiro ou sombra. o homem era inodoro e desassombrado
a noite continuou na sua exalação egótica de borbulhas, de palavras sem forma, cheias de significado, privadas de suporte emocional. as sombras não sabem ler, não compreendem mais que os riscos, mais que os ricos
e partem nas asas de uma ave de sombra: uma gaivota-ícaro, sem pai nem sol, que dormira na rua que sai do cais
onde os marinheiros se encontram
em quartos ranhosos
de pensões
com proprietárias velhas
cruéis
para concretizarem em terra os arrobos de amor que a vastidão do mar acendeu. não há putas, para os marinheiros. só marinheiros e súplicas
estavam lá as sombras, estão sempre lá: as sombras
são como a memória: mesmo nos sonhos há sombras: nunca se conseguem apagar as luzes nos sonhos
nem sequer dos sonhos dos marinheiros
fim
Posted by moura_x at
09:48 PM
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'
yesterday i woke up wet from my bed
yesterday i woke up like an animal
in a dry place
a dry plane
in a dry place
better put up two colors in my head
better fell down as i try to say
Everything in its right place
'
(percepção/reificação deturpada por drogas legais de um tema dos radiohead)

[wedding dress - natasha gudermane]
soube, quando acabaste de me acariciar, que nada daquilo tivera um sentido. estou farta de discursos do 'devias' e do 'tinhas de'. soube, da minha pele, do meu cheiro, que agora nada fazia sentido. o que é pior, sabia antes do frasco com uma mão que me houveras deixado, prenda de mesa de cabeceira, que nenhum dedo era teu. pensavas que me importaria, que serias outro que não aquele que és se mo tivesses dito. nada mudaria. sabia mais de ti que sabias de mim. e poder-te-ás perguntar quanto isso era
na...
nada
apenas tinha o teu cheiro espalhado pelo meu ombro, a tua marca nas minhas costas, o teu suor nas minhas nádegas. e desde aí, momentos tão esparsos quanto curtos, um espelho se desenhara pelos símbolos que me houveras proporcionado. tudo eram as estradas, a estrutura, o desencabeçar da linha que ultima a preparação do susto
fingias, fingi
que mais fazer. uma foda é uma foda
e um olhar é um olhar
cada um no referencial do seu valor relativamente ao sentir
perdidos no nó da frescura, como dois mineiros, ou talvez três ou quatro ou muitos. perdemo-nos e perdíamos a vitalidade da terra, da areia, dos plásticos na areia
vejo-nos a esta distância sacra que a tudo distende, que a tudo separa
o prazo de validade, e a mão sem vontade de nada que não os seus próprios dedos
Posted by moura_x at
05:31 PM
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vieste e quebraste-me a língua
insurgiste-te à falta das mãos
azuis
tristes
inquietas
fundaste a propriedade em algo que não eu
e eu fugi
sem nunca sair do mesmo lugar
perguntaste-me
- quem és este?
Posted by moura_x at
07:45 PM
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sabem das espigas
dos campos
das estepes
e floram incautas
as harmonias
conquistam-se devagar os espaços
a penumbra da interrogação
sabes tão bem o que queres
que até te metes nojo
perguntas-te sempre
qual o primeiro pé com que pisarei amanhã o chão
são as vozes
que se elevam junto do horizonte
apelam ao destroçar do sonho
o que se sabe
o que se sabe
o que se sente e se não reconhece
têm mãos, e cadeiras
rabos sentados, olhos inquietos
amor estranho na praia
à tarde
e as ondas altas
espigas
campos
estepes
sabem
do seu seio crescem e morrem suspiros
flores, flores
tantas flores e as mãos tão longe
como cresceram tanto as mãos
e as flores ficaram tão longe
tão perto do sangue
dispersas no círculo
Posted by moura_x at
07:44 PM
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